A crise climática já não é uma ameaça distante. Para a maioria das pessoas que vivem e trabalham nas grandes cidades brasileiras, ela já se manifesta no custo das contas no fim do mês, na dificuldade de chegar ao trabalho em dias de enchente, no calor que compromete a saúde e a produtividade. É a partir dessa premissa — de que o clima é uma questão também do trabalho — que a More in Common Brasil e Aurora Lab conduziram, entre maio e setembro de 2025, a Pesquisa Clima, Trabalho e Transição Justa.
Com 2.630 entrevistas presenciais estruturadas realizadas em pontos de circulação pública de nove capitais brasileiras — Belém (PA), Brasília (DF), Fortaleza (CE), Natal (RN), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP) —, a pesquisa oferece um retrato exploratório das percepções dos entrevistados sobre mudanças climáticas, mundo do trabalho e os processos de transição para uma economia de baixo carbono.
Como a pesquisa foi realizada
A coleta de dados ocorreu durante o percurso da Caravana do Futuro, projeto de Aurora Lab que percorreu o Brasil ao longo de 2025. Os aplicadores da pesquisa abordaram pessoas espontaneamente em praças, terminais, mercados e áreas comerciais, com o objetivo de mitigar vieses de seleção. Foram realizadas 4.390 abordagens no total, resultando em uma taxa de adesão agregada de 60%.
O estudo tem caráter exploratório e amostragem por conveniência — não probabilística —, o que significa que seus resultados não permitem generalizações sobre a população brasileira. Os achados devem ser lidos como convergências e hipóteses relevantes para investigação posterior, não como retratos definitivos das capitais visitadas. O instrumento foi desenvolvido pela equipe da More in Common Brasil em parceria com Aurora Lab, com questões em linguagem neutra, sem termos técnicos ou de militância, a fim de evitar respostas induzidas.
O impacto climático já é uma questão do trabalho
Um dos dados mais relevantes da pesquisa é que 85% das pessoas entrevistadas afirmam que as mudanças climáticas já impactam suas atividades diárias — 46% disseram que impacta “muito” e 38% que afeta “um pouco”. Quando perguntadas sobre quais são esses impactos, as respostas se conectam diretamente ao mundo do trabalho e à vida cotidiana:
- Aumento dos custos de vida (53%)
- Problemas de saúde física (45%)
- Dificuldade de acesso ao local de trabalho (40%)
- Saúde mental (32%)
- Perda de renda (17%)
- Perda de emprego (10%)
Esses dados confirmam que a crise climática deixou de ser uma pauta abstrata para se tornar uma experiência vivida no corpo, no bolso e na rotina de quem trabalha. A trabalhadora e o trabalhador brasileiros já reconhecem o problema — e esperam soluções.balha. A trabalhadora e o trabalhador brasileiros já reconhecem o problema — e esperam soluções.
Há terreno para mudança estrutural
Os dados também apontam uma abertura significativa à transformação: 93% das pessoas entrevistadas concordam que a sociedade precisa mudar a forma de produzir e consumir para enfrentar a crise climática — e 74% concordam totalmente com essa afirmação.
Esse resultado é estrategicamente relevante: o obstáculo público hoje não é mais convencer de que a mudança para uma economia de baixo carbono é necessária. A disputa se deslocou para como e para quem essa mudança acontece. É nesse campo — o da justiça distributiva — que o debate brasileiro precisa avançar.
O Estado como responsável por proteger o trabalhador
A pesquisa também revela com clareza quem as pessoas esperam que lidere a proteção dos trabalhadores nesse processo: 67% atribuem ao governo federal a responsabilidade pela proteção de trabalhadoras e trabalhadores diante das mudanças climáticas. Empregadores aparecem como responsáveis para apenas 7%, e instâncias coletivas organizadas somam menos de 6%.
Esse dado dialoga diretamente com o que a More in Common Brasil tem observado em outras pesquisas sobre o perfil da maioria da população brasileira: um pragmatismo político que privilegia temas concretos — trabalho, renda, saúde, segurança — e uma expectativa de que o Estado seja o garantidor de direitos em momentos de transformação estrutural.
“A pesquisa nos mostra que a crise climática já atravessa o cotidiano de quem trabalha — e que essa maioria espera proteção, não apenas promessas de futuro”, afirma Gabriela Feitosa, líder de projetos e parcerias da More in Common Brasil. “O desafio agora é colocar a Transição Justa como um projeto de justiça distributiva — e não como pauta ambiental distante da vida material das pessoas.”
O tema foi debatido no evento “Quem move o Brasil? | Debates sobre Trabalho, Energia e Desenvolvimento”, promovido por Aurora Lab em São Paulo. Gabriela participou da mesa “Além da Estrada: caminhos para descarbonizar o transporte no Brasil” ao lado do sociólogo e escritor José Henrique Bortoluci, autor de “O que é meu”. A conversa foi conduzida por Luz González, co-fundadora e diretora de redes e parcerias de Aurora Lab.
Bortoluci parte de entrevistas com seu pai, motorista de caminhão por 50 anos, para traçar a história recente do país. Seu livro mostra como, mesmo em momentos de forte polarização, há um descolamento profundo entre a política institucional e o cotidiano de quem sustenta sua economia.
A obra conversa com o estudo O Brasil Invisível, da More in Common Brasil. A pesquisa de segmentação revela uma maioria silenciosa que compartilha da desconfiança com o sistema político, mas evita o confronto moral. Os
Cautelosos (27%) e os Desengajados (27%) compõem os chamados Invisíveis. O grupo é pragmático, avesso a disputas ideológicas e interessado em temas concretos, como trabalho, segurança e serviços públicos. Por isso, representa o maior ativo de reconstrução da coesão democrática em meio às minorias polarizadas.

Brasil? | Debates sobre Trabalho, Energia e Desenvolvimento”, promovido por Aurora Lab
Otimismo com a transição, ceticismo sobre a distribuição
Há otimismo com as oportunidades geradas pela transição energética e produtiva: 67% das pessoas acreditam que mudar a forma de produzir e consumir trará mais oportunidades para os trabalhadores, e apenas 10% acreditam que trará menos.
No entanto, quando a pergunta se desloca das oportunidades de emprego para a desigualdade, o quadro se complexifica. As respostas se dividem de forma significativa:
- 45% acreditam que as desigualdades vão diminuir com a transição
- 23% acreditam que vão aumentar
- 17% acreditam que não vão mudar
- 15% não souberam responder
Ou seja: 40% das pessoas entrevistadas, combinadas, não acreditam que a transição vai redistribuir de forma justa os seus benefícios. Esse ceticismo persistente sobre quem ganha e quem perde pode se transformar em resistência à mudança se a Transição Justa não for ancorada em garantias concretas de proteção social e equidade.
Redes sociais como canal, ciência como autoridade
A pesquisa também investigou como as pessoas se informam sobre clima e em quem confiam. As redes sociais são a principal fonte de informação em todas as capitais pesquisadas (65%), revelando a centralidade do ambiente digital também no debate climático. Apesar disso, cientistas e universidades (69%) são os que têm maior credibilidade — ou seja, mesmo em um cenário de ampla desinformação e polarização, a ciência continua a ser percebida como autoridade legítima sobre o tema.
O que os dados nos dizem sobre a Transição Justa
Os achados da pesquisa apontam para a necessidade de nomear a Transição Justa como um projeto de justiça climática e equidade — e de investir em soluções capazes de articular os impactos climáticos já vividos por trabalhadores e trabalhadoras com a proteção social, a garantia efetiva de direitos, o debate sobre jornadas e condições de trabalho, e a discussão sobre o valor do trabalho hoje e amanhã.
A More in Common Brasil acredita que esse caminho passa, necessariamente, por ouvir quem já sente a crise em sua vida cotidiana — e por construir agendas que façam sentido na vida cotidiana da maioria do país.
Acesse os dados completos e o infográfico no site de Aurora Lab
Assista à reportagem sobre a pesquisa exibida pela Globo News