No dia 3 de junho de 2015, Jo Cox fez seu primeiro discurso na Câmara dos Comuns no Reino Unido. Eleita pelo Partido Trabalhista para representar Batley and Spen, no norte da Inglaterra, a parlamentar falou sobre os desafios econômicos da região onde nasceu e também sobre a rica contribuição dos imigrantes católicos da Irlanda e muçulmanos da Índia e do Paquistão para o desenvolvimento local.
“What surprises me time and time again as I travel around the constituency is that we are far more united and have far more in common than that which divides us.” /
“O que me surpreende repetidamente ao viajar pelo meu distrito eleitoral é que somos muito mais unidos e temos muito mais em comum do que aquilo que nos divide.”
Pouco mais de um ano depois, em 16 de junho de 2016, a voz da parlamentar que clamava por união foi silenciada pela violência política.
Uma semana antes do referendo do Brexit, que retiraria o Reino Unido da União Europeia, Cox foi baleada e esfaqueada diversas vezes pouco antes de um evento com eleitores. O agressor era um supremacista branco que gritou “Britain first” – “Reino Unido primeiro” – ao efetuar o ataque.
Jo Cox morreu aos 41 anos deixando o marido, Brendan Cox, e dois filhos, então com 3 e 5 anos de idade. E também um legado de defesa do diálogo e da coesão social que deu origem à More in Common.
Momento de união em meio à polarização
No dia seguinte ao assassinato, Brendan Cox abriu uma vaquinha em nome de três causas caras à mulher: o Royal Voluntary Service, o Hope not Hate e os Capacetes Brancos da Síria. Em três dias, arrecadou mais de 1 milhão de libras – símbolo de união numa sociedade profundamente dividida.
A More in Common surgiu nesse contexto, tomando emprestadas as palavras do discurso de estreia de Jo no Parlamento. A organização, hoje presente em sete países, entre eles o Brasil, dedica-se a estudar a polarização afetiva – e oferecer ferramentas para reduzir hostilidade e construir soluções para os problemas mais importantes de nossa época.
O trabalho da More in Common estrutura-se em três pilares: produzir conhecimento, fazer orientação estratégica e fomentar novas iniciativas. A organização realiza pesquisas regulares de opinião pública, dissemina as descobertas via relatórios e metodologias que visam instrumentalizar o campo, e participa do debate político e midiático.
As pesquisas de segmentação da população – como O Brasil Invisível, lançado no ano passado por aqui – são uma das contribuições metodológicas mais originais da entidade. O modelo divide os habitantes em perfis baseados em valores, visões de mundo e preocupações — não em partidos ou perfis demográficos tradicionais. Os resultados revelam que a maioria das pessoas ocupa um meio-termo mais moderado do que a polarização do debate público sugere.

Legado e desafios
Dez anos depois do assassinato, a política continua incentivando a identificação do adversário como inimigo, em ambientes fragmentados pelo ódio, pela desinformação e pela polarização afetiva.
Mas Jo Cox nos lembra de que o consenso não é ingenuidade, é um ato de coragem. A esperança da More in Common é poder honrar sua memória ajudando a construir sociedades mais coesas e capazes de lidar com seus desafios.
Quem foi Jo Cox
Nascida Helen Joanne Leadbeater em 22 de junho de 1974 em Dewsbury, West Yorkshire, cresceu em Batley; Filha de Jean, secretária escolar, e Gordon Leadbeater, operário de fábrica de pasta de dente e laquê, teve uma origem radicalmente diferente dos corredores de poder que viria a frequentar.
Tímida na infância, Jo se destacou na escola, tornando-se líder de turma e nadadora. Foi a primeira da família a ir para a universidade, ingressando na prestigiada Cambridge para estudar Arqueologia e Antropologia, curso que depois trocou por Ciências Sociais e Políticas.
Depois de se formar, trabalhou como assessora parlamentar, tornou-se consultora política no Parlamento Europeu e, em Bruxelas, e, em 2001, ingressou na Oxfam. Na entidade, foi peça fundamental na campanha “Make Trade Fair”, que buscava remover tarifas injustas que impediam países em desenvolvimento de comercializar com a UE. Junto à Anistia Internacional, pressionou por um tratado global de comércio de armas, adotado em 2014.
Em seus poucos meses no Parlamento britânico, fundou e presidiu o grupo parlamentar transpartidário Friends of Syria e trabalhou com o conservador Tom Tugendhat num relatório sobre proteção de civis em conflitos. Ela também conduziu campanhas sobre igualdade na educação, apoio a crianças com autismo, paridade de gênero no Parlamento e combate à solidão.
Assassino condenado
Em novembro de 2016, Thomas Mair foi considerado culpado por todos os crimes: o assassinato de Jo Cox, o esfaqueamento de Bernard Kenny, posse de arma de fogo e posse de arma branca. O juiz aplicou pena de prisão perpétua sem possibilidade de soltura. Mair também foi oficialmente reconhecido como terrorista pelo Estado britânico.