Brexit: como os britânicos veem a saída da UE 10 anos depois?

Há dez anos, o Reino Unido votou para deixar a União Europeia em um referendo histórico — uma decisão vendida, entre outras coisas, como a chave para “recuperar o controle” sobre as fronteiras e acelerar a economia do país. Uma década depois, a More in Common Reino Unido publica uma pesquisa de opinião pública que mostra que quase metade da população (48%) votaria por um retorno ao bloco europeu se houvesse um novo referendo.

Mesmo entre aqueles que votaram a favor do Brexit, quase um quinto (18%) mudou de ideia. No geral, 28% manteriam o Brexit, 12% disseram que não votariam e 12% não souberam responder.

A pesquisa 10 years on: Public opinion on Brexit and the EU in 2026, divulgada em junho, é baseada em pesquisas quantitativas de opinião pública e qualitativa, com grupos focais.

A promessa não se sustentou

Em 2016, controlar a imigração foi, ao lado de garantir mais investimentos no sistema público de saúde, o NHS, a razão mais citada pelos britânicos para votar pela saída da União Europeia. A promessa central era que sair da UE significaria retomar o controle de quem entra no país e conseguir custear as políticas prioritárias para a população.

Uma década depois, a pesquisa mostra que 59% dos britânicos acham que o Brexit “fracassou”. Quatro em cada 10 consideram que sair da UE piorou suas vidas – quatro vezes mais do que quem acha que a vida melhorou depois da decisão.

A maioria — inclusive entre quem votou para sair do bloco — acredita que a imigração aumentou desde o Brexit. Em grupos focais, moradores que votaram “leave” (sair) relatam a sensação de que a promessa de fechar as fronteiras não foi cumprida.

A situação do sistema público de saúde também não melhorou. Menos de 1 em cada 5 acha que o National Health Service recebeu mais verbas na última década.

De quem é a culpa do fracasso?

A pesquisa da More in Common Reino Unido também quis saber a percepção das pessoas sobre por que as promessas do Brexit não se concretizaram.

Quase metade (46%) dos britânicos disse que a saída da UE poderia ter funcionado, mas que os políticos a conduziram mal. Mas uma parcela significativa (35%) da população acredita que o Brexit nunca teria funcionado.

Se grande parte dos britânicos estaria disposta a voltar para o bloco, quase metade (45%) teme que a União Europeia imponha condições desfavoráveis para o possível retorno. Com seu papel no mundo diminuído e com menos poder de barganha, o Reino Unido poderia acabar com um acordo ainda pior, teme parte da população.

Apoio a novo referendo é maior entre mais jovens

Outra descoberta da pesquisa é que a ideia de um novo referendo nos próximos cinco anos é majoritária nas faixas etárias até 44 anos. Quase 6 em cada 10 britânicos entre 18 e 24 anos apoia uma nova votação. É o mesmo patamar da faixa entre 25 e 34 anos. Entre 35 e 44 anos, o apoio está em 54%.

A adesão a uma nova consulta popular vai caindo nas demais faixas etárias, até chegar a 38% entre quem tem mais de 75 anos.

Novo contexto geopolítico aumenta preocupação

Uma nova preocupação parece fazer os britânicos repensarem uma volta à União Europeia: o aumento da insegurança global.

A percepção de 64% da população de que o Reino Unido não estaria pronto para uma guerra aponta para a possível parceria com o bloco europeu na defesa.

Essa questão ganhou importância após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã, com pedido de ajuda ao Reino Unido. E soma-se aos já conhecidos problemas de aumento de custo de vida, falha no controle da imigração e relações exteriores fragilizadas.

Saiba mais sobre a More in Common

A More in Common é uma entidade não-partidária, sem fins lucrativos, criada após o assassinato da parlamentar britânica Joe Cox. Sua missão é entender as divisões que afetam as sociedades e buscar pontos in common (em comum) para ampliar a coesão e fortalecer a democracia.

A organização atua em sete países e está no Brasil desde 2024. O primeiro grande estudo para entender as questões que dividem a sociedade brasileira foi publicado no fim do ano passado. Acesse a página de O Brasil Invisível para saber mais.

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