O que padres e pastores dizem sobre as eleições quando sobem ao púlpito? Para responder a essa pergunta, a More in Common Brasil e o Grupo de Pesquisa Passagens, da UFRJ, baixaram, transcreveram e analisaram as transmissões no YouTube de 7.456 missas e cultos realizados em 20 e 27 de setembro de 2026 – os dois domingos anteriores ao primeiro turno das eleições. Foram 13.886 horas de áudio, o equivalente a 578 dias corridos de transmissão, de cerimônias em 25 estados (todos menos o Acre) e no Distrito Federal.
O resultado contraria a imagem do “voto de cajado”. Houve propaganda eleitoral em 3% das celebrações, usando uma definição ampla, em que a simples menção a um candidato já conta. Os conteúdos cívicos, que incentivam o voto consciente e o combate à polarização, estiveram em quase uma em cada seis missas e cultos. São cinco vezes mais frequentes.
Os principais achados
- A propaganda é minoritária em todas as tradições, mas varia: aparece em 0,7% das missas católicas, 1,4% dos cultos batistas e 8,3% dos cultos da Assembleia de Deus;
- O conteúdo cívico é mais comum: está em 19,9% das missas católicas, 12,2% dos cultos batistas e 16,7% dos cultos da Assembleia de Deus;
- O alvo é o Legislativo: quando há indicação de nomes, os candidatos costumam ser a deputado estadual ou federal, e não à Presidência. Em geral, são apresentados pela proximidade com a comunidade religiosa;
- A propaganda escapa das categorias da lei: os pesquisadores encontraram santinhos distribuídos na porta, convites para adesivar carros, candidatos apresentados e abençoados durante o culto, pedidos para conversar em particular com o pastor e até transmissões interrompidas antes de uma orientação de voto;
- A polêmica das redes ficou fora da igreja: a falsa notícia sobre o título de Nossa Senhora Aparecida dominou as redes sociais, mas quase não apareceu nas celebrações. Quando apareceu, foi principalmente para desmentir a informação.
“Ao contrário da crença generalizada de que pastores e padres tratam os fiéis como curral eleitoral, vemos que a ocorrência de propaganda eleitoral nas missas e cultos é bastante minoritária.” — Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common Brasil
“O púlpito revela, assim, uma política menos centrada apenas na disputa presidencial e mais enraizada em redes locais de reciprocidade e representação.” — Rodrigo Toniol, professor da UFRJ
Uma lei pensada para cartazes, não para sermões
A Lei das Eleições proíbe propaganda eleitoral dentro de templos e doações de entidades religiosas a campanhas. Mas não define onde termina a pregação sobre temas morais e onde começa o pedido de voto. A pesquisa propõe discutir esses limites em três dimensões: teológica, ética e legal.
Como ler os dados
A amostra corresponde a cerca de 10% das missas católicas e dos cultos batistas do país, mas não é representativa. Não é possível saber se as igrejas que transmitem suas celebrações têm mais ou menos propaganda eleitoral do que as que não transmitem.
O estudo completo traz a metodologia, as análises na íntegra, o contexto legal e exemplos de falas registradas em campo, transcritas literalmente.