Lulistas e bolsonaristas não são iguais – nem entre si

As diferenças entre quem votou em Lula e em Bolsonaro

Há uma leitura do eleitorado brasileiro que parece óbvia: de um lado, quem vota em Lula; do outro, quem vota em Bolsonaro. O problema dessa leitura não é que ela seja falsa — é que ela esconde o que mais importa para quem precisa se comunicar com o eleitor, construir coalizões em torno de agendas ou formular políticas públicas. As diferenças dentro de cada campo são tão profundas quanto as que separam os dois lados. 

Em 2025, a  More in Common Brasil se propôs a compreender o brasileiro a partir dos seus valores, medos e distintas visões de mundo, e não apenas como grupos organizados em torno apenas de variáveis demográficas e identidades políticas. Esse exercício, que partiu de pesquisa de opinião com 10 mil brasileiros e entrevistas com grupos focais, resultou no estudo O Brasil Invisível, que vem orientando as estratégias de atuação da organização e de seus parceiros. Agora, às vésperas das eleições de 2026, a More in Common revisita esse banco de dados voltando o olhar para o eleitorado brasileiro. Ao analisar a declaração de voto no primeiro turno de 2022, identificamos três subgrupos dentro do eleitorado de Lula e três dentro do eleitorado de Bolsonaro. E o que encontramos muda a forma como se lê a polarização brasileira. 

Antes de apresentar os grupos, vale registrar algo sobre o método. As duas segmentações não descrevem o mesmo tipo de heterogeneidade. Entre eleitores de Lula, variáveis que cobrem valores morais, desconfiança institucional e identidade política produzem grupos com diferenças marcantes em quase todos os eixos — a clivagem em temas como cotas e escola chega a 22 pontos percentuais entre os segmentos. Já entre eleitores de Bolsonaro, dimensões como religiosidade, machismo e afeto pelo ex-presidente do PL foram mais importantes para distinguir os grupos do que opiniões sobre segurança pública ou economia, que simplesmente não entraram no desenho. O mapa que apresentamos é uma escolha analítica, não uma descrição exaustiva de cada campo. 

O eleitorado de Lula: dois eixos, não um espectro 

O maior grupo dentro do eleitorado de Lula, os Populistas (43%), combina a maior desconfiança institucional entre todos os três segmentos com forte simpatia ao PT (52%) e rejeição quase total a bolsonaristas (nota 1,6 em 10). Quase 44% desconfiam do Congresso — percentagem similar aos Tradicionalistas, do campo bolsonarista. Isso parece contraditório. Mas faz sentido quando se entende que essa desconfiança não vem da narrativa sobre STF ou fraude eleitoral. Ela vem da percepção de que as instituições foram capturadas por elites e não funcionam para quem tem menos — um grupo com menor escolaridade e renda que os demais. É uma desconfiança antissistema, não ideológica. 

O segundo grupo, os Ativistas (37%), concentra escolaridade, renda e engajamento político muito acima dos outros. É o mais progressista, o mais mobilizado, o de identidade petista mais forte. Mas mesmo aqui há um dado que surpreende: 68% apoiam prisão para menores infratores, e 14% concordam que homens são superiores a mulheres. A fronteira entre progressismo e conservadorismo dentro do próprio campo de Lula não é linear — e esse piso de 14%, num público que se percebe de esquerda, é relevante para qualquer estratégia de comunicação de gênero. 

O terceiro grupo, os Pragmáticos (19%) — o menor —, é o mais difícil de nomear porque não cabe num rótulo. Votaram em Lula, mas têm identidade de direita significativa (41%) e termômetro afetivo positivo por Bolsonaro (6,9 em 10). São o flanco mais suscetível à migração eleitoral. Mas, atenção: 57% apoiam adoção por casais gays e 71% reconhecem o racismo policial. Não são um bloco bolsonarista disfarçado — são pessoas cujo voto cruza outros fatores: questões econômicas e acessos básicos. A chave para entendê-los não está na ideologia, está naquilo que o voto binário não capta. 

O eleitorado de Bolsonaro: motor político e polo moral distintos 

Quase metade dos eleitores de Bolsonaro — 49% — forma o que chamamos de Núcleo Duro. Maior identidade de direita (73%), maior adesão ao PL, maior engajamento: são os que vão às manifestações (41%), compartilham conteúdo político e têm aprovação máxima por Bolsonaro (8,8 em 10). Formam o motor político do campo. 

Mas há outro grupo, os Tradicionalistas (22%), que não se define principalmente pela política, e sim pelos valores. Maior proporção de evangélicos (43%), maior defesa de que a lei deveria seguir valores religiosos (70%), conservadorismo radical em gênero. Esse grupo não é o mais mobilizado — é o mais moral. A separação importa para qualquer estratégia de comunicação: o que ressoa com o Núcleo Duro não ressoa necessariamente com os Tradicionalistas. São analiticamente distintos, mesmo votando no mesmo campo. 

O terceiro grupo — 29% — é o que mais abre espaço para conversa com eleitores de Bolsonaro. Os Desencantados votaram em Bolsonaro, mas têm rejeição afetiva ao próprio candidato (nota 4,0). Têm menos identidade partidária e menor engajamento: menos de 9% compartilham conteúdo político. A desconfiança institucional é alta — mas o afastamento é pessoal, não ideológico. Ainda rejeitam muito o PT (nota 2,7), o que indica mais um distanciamento de Bolsonaro do que uma aproximação do campo adversário. Para aqueles que buscam diálogo fora da bolha, é aqui que a janela está mais aberta. 

O que atravessa os dois campos 

Três padrões emergem quando se olha para os seis grupos ao mesmo tempo. O primeiro é a extensão da desconfiança institucional: mesmo o grupo mais confiante nas instituições — os Ativistas do eleitorado de Lula — tem 7,5% de desconfiança no STF. Dentre o Núcleo Duro, o piso já é de 58%. A crise de confiança atravessa o espectro – o que muda é a intensidade. 

O segundo padrão é a dissociação entre desconfiança e mobilização. Os grupos que mais desconfiam (ou mais desconfiados) — os Populistas de Lula e os Desencantados de Bolsonaro — são também os de menor engajamento político. Isso sugere que a rejeição às instituições tende à apatia, não à ação direta. Para aqueles que querem transformar essa desconfiança em participação, esse é talvez o dado mais relevante da pesquisa. 

O terceiro padrão é uma assimetria que merece estudos mais aprofundados antes de virar conclusão: a rejeição a Bolsonaro entre os grupos de Lula atinge o mínimo da escala (1,6), enquanto a rejeição a petistas nos grupos de Bolsonaro, embora alta, não chega a esse extremo (2,4 a 2,7). Pode ser uma diferença real de intensidade entre os dois campos — ou pode ser um efeito de como as pessoas respondem a escalas. Dados de outras pesquisas dirão. 

Vale destacar ainda a permeabilidade de dois segmentos específicos. Os Pragmáticos, que não odeiam os bolsonaristas, e os Desencantados, que odeiam os bolsonaristas, mesmo declarando voto em seu candidato. Enquanto os Pragmáticos podem ser seduzidos pelo bolsonarismo a partir do conservadorismo moral, os Desencantados têm menos adesão a pautas mais conservadoras típicas do bolsonarismo podem ser atraídos para o petismo pelo populismo econômico. 

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