Compreendendo as divisões ocultas da sociedade brasileira para fortalecer o que nos une.
O Brasil vive um período de tensões políticas e sociais que torna indispensável compreender como diferentes grupos enxergam o país e organizam suas prioridades. O estudo O Brasil dos Invisíveis identifica seis segmentos sociais que ajudam a entender os diferentes perfis de valores e visões de mundo presentes na sociedade brasileira.
Para isso, combinamos pesquisa qualitativa e quantitativa com técnicas de clusterização. Esse desenho permitiu identificar uma estrutura subjacente de atitudes, percepções e valores que organizam as posições públicas no país.
A segmentação revela uma sociedade organizada em torno de seis grupos relativamente estáveis e previsíveis. Nos polos, os Progressistas Militantes (5%) e os Patriotas Indignados (6%) concentram a militância ideológica e a adesão aos discursos morais. Os primeiros são seculares, engajados e críticos das estruturas de poder; os segundos, religiosos e desconfiados das instituições.
Apoiam esses extremos dois segmentos um pouco mais amplos e um pouco mais moderados: a Esquerda Tradicional (14%), reformista e orientada por valores comunitários, e os Conservadores Tradicionais (21%), que valorizam hierarquia, religião e ordem.
No centro, encontram-se os Desengajados (27%) e os Cautelosos (27%), chamados também de Invisíveis. Essa maioria silenciosa compartilha a desconfiança com o sistema político, mas evita o confronto moral. É pragmática, avessa a disputas ideológicas e interessada em temas concretos, como trabalho, segurança e serviços públicos. Os Invisíveis representam o maior ativo de reconstrução da coesão democrática, embora hoje sejam sub-representados no debate público.
Progressistas Militantes
Altamente engajados, combativos, críticos do status quo, defensores da justiça social e equidade, e contrários às diferentes formas de opressão
É o segmento com maior porcentagem de pessoas com ensino superior (53%), maior renda familiar (37% com renda familiar igual ou maior que 10 mil reais), e maior predominância de brancos (57%), se comparado à média nacional, e mais sem religião (41%). É o único segmento que se define majoritariamente como progressista (78%) e a maioria tem simpatia pelos partidos de esquerda, PT (39%) e PSOL (16%). É muito engajado (71% consideram importante participar em manifestações políticas e 69% conversam com amigos e familiares sobre política) e se preocupa com a luta contra as desigualdades e as opressões de gênero e raça. Enquanto que para os demais segmentos valores como família e fé são preponderantes, para os Progressistas Militantes o valor primordial é a justiça social.
Esquerda Tradicional
Reformistas, cívicos, orientados por valores comunitários e religiosos, defensores da justiça social por meio do fortalecimento do Estado e da proteção dos mais vulneráveis, com menor identificação com pautas identitárias e menor adesão ao confronto político
É um segmento escolarizado (33% tem ensino superior), católico (47,5%) e mais presente no Sudeste (44%) e no interior do Nordeste (21%). Embora nós o tenhamos chamado de “Esquerda Tradicional”, na falta de nome melhor, esse segmento não tem identidades políticas fortes — apesar disso metade se identifica em algum grau como petista (50%). São pouco engajados (apenas 21% conversam sobre política e 23% votou branco, nulo ou não foi votar nas eleições de 2022) e muito preocupados com as questões sociais. Diante da polarização e de um confronto político moralizado, a Esquerda Tradicional dá sinais de fadiga e risco de desmobilização.
Desengajados
moderados, pessimistas, pragmáticos, avessos a conflito, moralistas, cansados
É o segmento menos escolarizado (apenas 6% com curso superior), o mais pobre (65% têm renda menor do 5 mil reais) e o mais preto (13%). Um décimo do segmento viveu insegurança alimentar (12% não teve o que comer). É católico (47%) e evangélico (27%). É o segmento mais desengajado politicamente (30% votou branco, nulo ou não votou nas eleições de 2022 e apenas 15% consideram manifestações políticas importantes). É o segmento que tem menos identidade partidária (65% simpatiza com partido nenhum — embora 21,5% simpatizam com o PT), tem menos identidade no espectro esquerda-direita (45% não se definem como esquerda, direita ou centro) e menos identidade bolsonarista-petista (46% não se definem nem como petista, nem como bolsonarista). Apesar disso, 72% se identificam como conservadores. Preocupam-se com segurança econômica e serviços públicos de saúde e combate à pobreza. A sua desmobilização não é uma despolitização, mas um afastamento da política atual.
Cautelosos
Populistas, desmobilizados, céticos, conspiracionistas, desconfiados, moralistas
Depois dos Desengajados, é o segmento menos escolarizado (apenas 11% com ensino superior) e mais pobre (55% tem renda menor do que 5 mil reais). É também o segmento mais nordestino (31%) e rural (17%) e o mais católico (49%). Assim como os Desengajados, 12% não teve o que comer. Tem um nível de engajamento intermediário (26% considera importante participar de manifestações políticas). Apresenta identidade marcada como conservador (81%) e identidades desalinhadas, de petista (45%) e de direita (40%). É o segmento que tem maior desconfiança das elites, sobretudo das elites intelectuais.
Conservadores Tradicionais
Religiosos e engajados, defendem a autoridade, a família e a tradição como pilares da sociedade.
São religiosos (apenas 17% não têm religião) e pouco mobilizados (apenas 27% conversam sobre política). Têm identidades políticas como conservadores (88%), bolsonaristas (73%) e de direita (63%), mas consideravelmente menos intensas do que as dos Patriotas. Têm muitas opiniões semelhantes às dos Patriotas no tocante à família e aos valores morais, mas são menos engajados.
Patriotas Indignados
Nacionalistas, mobilizados e revoltados com as elites, veem-se como guardiões dos verdadeiros valores brasileiros.
É um segmento escolarizado (23% com ensino superior) e religioso (é o segmento mais religioso e com maior proporção de evangélicos, 38% – apesar de 41% serem católicos). São mobilizados (49% considera importante participar de manifestações políticas) e tem identidades políticas muito fortes como conservadores (93%), de direita (81%) e bolsonaristas (70%). Entre os partidos políticos, têm mais simpatia pelo PL (37%). Se informam sobre política predominantemente pelo WhatsApp (58%) e pelo Youtube (59%). São descrentes das instituições políticas (61% não confia no Congresso e 71% não confia no STF). Como os Conservadores Tradicionais, defendem a ordem e os valores morais tradicionais.
Nos últimos anos, o debate político brasileiro migrou do campo econômico para o moral.
Discussões sobre família, religião, sexualidade, raça e educação passaram a dominar o espaço público, substituindo o foco em políticas sociais. Esse fenômeno — chamado de guerras culturais — é alimentado por dois polos ideológicos: Progressistas Militantes e Patriotas Indignados.
A maioria dos brasileiros, porém, evita esses embates e combina valores conservadores e progressistas.
Todos os segmentos compartilham, em alguma medida, a visão de que o povo enfrenta uma elite distante. Mas, na direita, esse populismo ganha forma cultural: a crença de que instituições como escolas e a mídia foram “capturadas” por uma elite progressista que exclui visões conservadoras.
O progressismo vira sinônimo de elite cultural, reforçando o discurso de exclusão.
53% dos Progressistas Militantes têm ensino superior
37% têm renda familiar igual ou acima de R$ 10 mil
Esse distanciamento fortalece a ideia de que os progressistas são “fora da realidade” da maioria.
Conservadores veem instituições como o Congresso, STF, TSE e a imprensa como parciais e hostis à sua visão de mundo. Por isso, buscam outras fontes de informação (como WhatsApp e YouTube) e desconfiam da democracia liberal.
Essa erosão de confiança gera um ciclo vicioso de exclusão e radicalização.
A principal fonte de conflito hoje é emocional. Quando as pessoas alinham sua identidade política (ex: progressista ou conservador) a outras dimensões (partido, religião, classe), passam a ver o outro lado como ameaça à sua existência.
Não é apenas “discordar”: é perceber o outro como “inimigo”.
Pessoas com identidades políticas fracas = baixa polarização
Identidades fortes e alinhadas = rejeição total do outro grupo
Há caminho para o diálogo? A pesquisa mostra que uma grande parte da sociedade brasileira está disposta a dialogar sobre propostas que possam melhorar pontos essenciais de sua vida, como saúde, emprego, segurança e educação.
E, mesmo entre os mais diferentes, há oportunidade para a conversa:
75% dos brasileiros acham que têm mais em comum do que diferenças;
90% de todos os segmentos têm orgulho de ser brasileiro;
90% das pessoas querem que os partidos trabalhem juntos para resolver os problemas.
Os desafios existem, mas, ao identificar brechas, a pesquisa da More in Common pretende fornecer instrumentos para alcançar um Brasil mais democrático e mais coeso.
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