Depois de mapear a opinião dos brasileiros sobre as bets, a More in Common e a Ipsos-Ipec foram a campo para medir um fenômeno mais amplo: o quanto lulistas e bolsonaristas erram ao imaginar o que o adversário político realmente pensa. Esse tipo de comparação é conhecido como “perception gap”, ou descompasso de percepção, e a nova pesquisa nacional mostra que o brasileiro exagera — e muito — a distância entre os dois campos.
O estudo partiu de seis frases: três estereótipos que a esquerda costuma atribuir à direita (ser contra a ascensão social dos pobres, contra a igualdade entre homens e mulheres e pouco comprometida com a democracia) e três que a direita costuma atribuir à esquerda (ser leniente com o crime, estimular a dependência do Estado e não valorizar a família). Simpatizantes de Lula e de Flávio Bolsonaro responderam o quanto concordavam com os estereótipos do próprio grupo — e tentaram adivinhar quanto o adversário concordaria.
“Os simpatizantes de Lula são mais ‘conservadores’ e ‘liberais’ do que pensam os simpatizantes de Flávio Bolsonaro. E os simpatizantes de Flávio são mais ‘progressistas’ e ‘democratas’ do que pensam os simpatizantes de Lula”, explica Pablo Ortellado, diretor-executivo da More in Common Brasil.
Bolsonaristas concordam com nota 86 (numa escala de 0 a 100) que é bom que os pobres viajem de avião, mas lulistas imaginam que a concordância seria de apenas 69 — um descompasso de 17 pontos. Na igualdade salarial entre homens e mulheres, bolsonaristas dão nota 94, mas lulistas esperam 73 (gap de 21).

Já lulistas concordam com nota 95 que “a família é a base de tudo”, mas bolsonaristas imaginam apenas 72 (gap de 22). Na afirmação sobre não depender do governo, a nota real dos lulistas é 84 contra uma expectativa dos bolsonaristas de 65 (gap de 19).

“Somos mais parecidos e temos mais coisas em comum do que pensamos. O que nos separa são as identidades políticas e os estereótipos que fazemos daqueles que adotam essas identidades”, afirma Ortellado.
Nenhuma das seis afirmações teve concordância média abaixo de 70 em nenhum dos dois grupos — ou seja, bolsonaristas são bem mais favoráveis à ascensão social dos pobres, à igualdade de gênero e à democracia do que lulistas supõem. E lulistas são bem mais favoráveis à família e à responsabilidade individual do que bolsonaristas imaginam.
O descompasso não varia muito entre homens e mulheres ou entre gerações, mas quase dobra entre quem tem curso superior: lulistas com diploma imaginam que bolsonaristas concordam apenas 59 pontos com a frase sobre os pobres viajarem de avião (ante 86 pontos reais, um gap de 27).

Já bolsonaristas com diploma superestimam menos, mas também erram mais que a média do próprio grupo. “O aumento do descompasso entre os que têm ensino superior é um pouco menor entre os bolsonaristas. Isso mostra, de todo modo, que o descompasso não é uma estimativa errada causada por ignorância ou pouco estudo”, pondera Ortellado.

Este é um padrão que a própria More in Common já havia identificado nos Estados Unidos, onde o erro de percepção cresce com o aumento da escolaridade entre democratas, mas não entre republicanos.
Para acessar todos os dados da pesquisa, inclusive a metodologia, basta baixar o arquivo.