O Centro MariAntonia da Universidade de São Paulo (USP) reuniu no dia 13 de abril pesquisadores, professores e gestores universitários de diferentes regiões do Brasil para o seminário “Pluralismo e liberdade acadêmica nas universidades”. O encontro marcou o início de uma conversa nacional sobre como o ensino superior público brasileiro pode responder ao ambiente crescente de polarização, autocensura e intolerância ao dissenso dentro dos campi.
O seminário deu origem ao manifesto “Em defesa do pluralismo e da liberdade acadêmica”, divulgado pela coluna de Monica Bergamo na Folha de S.Paulo (4 de maio). O movimento também foi tema da coluna do diretor-executivo da More in Common, Pablo Ortellado, no jornal O Globo (8 de maio) e de um artigo assinado por Waldomiro J. Silva Filho, Kelly Prudencio, Marcio Moretto Ribeiro, Pedro Damazio Franco e Verônica Toste Daflon em O Globo (6 de maio).
O manifesto também gerou um editorial do jornal Estadão (8 de maio) e da Folha de S. Paulo (14 de maio), onde também foi publicada a coluna de Wilson Gomes (13 de maio).
Os dados da pesquisa O Brasil Invisível, da More in Common, pavimentaram o diagnóstico do problema e impulsionaram o debate que sustentou a construção do documento. O manifesto tem autoria coletiva do grupo interdisciplinar de docentes e pesquisadores que participou das discussões e, até o dia 12 de maio, havia recebido apoio de mais de 600 docentes e, ao todo, mais de 1.200 integrantes da comunidade acadêmica.
Diagnóstico baseado em evidências
O ponto de partida do movimento foi uma constatação captada pela pesquisa da More in Common em parceria com o instituto Quaest, em 2025: as universidades públicas brasileiras enfrentam uma crise de reputação.
Mais da metade da população (59%) afirma confiar pouco ou não confiar na universidade pública. Metade (51%) considera que as universidades privadas oferecem ensino superior à rede pública. E, ainda mais preocupante: 54% acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de qualidade.
Essa percepção de falta de qualidade captada na pesquisa é distorcida. Avaliações nacionais e internacionais do ensino superior mostram que as universidades públicas seguem responsáveis por formação profissional e produção científica de excelência. Isso não significa, contudo, que elas não enfrentem dificuldades para garantir o pluralismo e sustentar a convivência entre perspectivas divergentes.
O manifesto e seus três pilares
A partir do diagnóstico do problema e dos depoimentos, o grupo articulou um manifesto subscrito por nomes como o sociólogo e cientista político Antonio Lavareda e a pesquisadora do Cebrap Maria Herminia Tavares, e organiza as recomendações em torno de três pilares.
O primeiro é a neutralidade institucional: a ideia de que universidades, enquanto instituições, devem evitar adotar posições oficiais sobre questões políticas ou ideológicas, preservando seu papel de fórum plural e protegendo a liberdade individual de docentes e pesquisadores.
O segundo é a liberdade acadêmica: o compromisso de que ninguém será sancionado por suas opiniões e de que a instituição manterá procedimentos transparentes e isentos diante de conflitos, evitando julgamentos sumários movidos por pressão de redes sociais ou grupos organizados.
O terceiro é o pluralismo: a defesa de currículos, programas de ensino e linhas de pesquisa que reflitam a real diversidade do pensamento acadêmico, ensinando as posições em disputa nas controvérsias em vez de apresentar uma única visão de mundo como consenso.
A importância do debate para o futuro da universidade
O manifesto descreve uma escalada de conflitos no ensino superior público brasileiro: abaixo-assinados, notas de repúdio, campanhas em redes sociais dirigidas contra docentes e estudantes, eventos cancelados ou interrompidos, aulas boicotadas. Os episódios mais graves envolvem agressões físicas, necessidade de escolta e interrupção forçada de atividades acadêmicas.
O grupo alerta também para o risco da omissão. Quando a falta de pluralismo não é enfrentada internamente, a universidade fica exposta a intervenções externas que tendem a agravar o desequilíbrio, em vez de corrigi-lo. Nos Estados Unidos, esse cenário inspirou tentativas de restringir conteúdos curriculares, reconfigurar departamentos e interditar agendas de pesquisa.
No Brasil, já há pressões na mesma direção: tentativas de proibir disciplinas e cursos, questionamentos legislativos sobre conteúdos ensinados, investigações por órgãos públicos e campanhas políticas e midiáticas voltadas a constranger docentes.
A solução para o problema passa pela responsabilidade ativa das próprias administrações universitárias — um caminho inscrito nos marcos do Estado Democrático de Direito.